Existe uma dimensão do sofrimento no trabalho que nem sempre é percebida.
Às vezes, a pessoa não está apenas cansada. Ela está há meses ou anos fazendo, entregando, resolvendo, se responsabilizando… sem sentir que aquilo que faz tem valor para alguém. E isso pode produzir algo mais profundo do que frustração. Pode atingir a própria percepção que ela tem de si.
Em A Loucura do Trabalho, Christophe Dejours chama atenção para a relação entre a organização do trabalho, o sofrimento psíquico e o reconhecimento. Para o autor, o reconhecimento do trabalho realizado tem um papel importante na construção da identidade do sujeito. Para ele, trabalhar não é apenas executar aquilo que foi prescrito. Entre aquilo que uma organização determina e aquilo que efetivamente precisa ser feito existe sempre uma distância.
É nesse espaço que o trabalhador coloca em ação sua experiência, sua inteligência, sua criatividade e sua capacidade de encontrar soluções para aquilo que não estava previsto. Existe, portanto, algo que o trabalhador coloca de si no que faz. E é justamente aí que o reconhecimento ganha uma importância particular.
Dejours faz uma distinção importante: o reconhecimento não é, inicialmente, um julgamento sobre quem a pessoa é, mas sobre a qualidade e a contribuição do trabalho que ela realizou. Quando esse trabalho é reconhecido como útil, bem feito ou relevante, esse reconhecimento pode ultrapassar a satisfação daquele momento e participar da construção da identidade. É como se, aos poucos, a experiência de:
“Aquilo que eu faço tem valor”
Pudesse também contribuir para:
“Eu tenho valor neste lugar.”
Por isso, a ausência prolongada de reconhecimento pode ser tão desgastante. Não se trata apenas de não receber um elogio. Trata-se de trabalhar, investir energia, enfrentar dificuldades, encontrar soluções e, ainda assim, não encontrar no outro, na liderança, nos pares ou na própria organização uma confirmação de que aquela contribuição existe e tem valor.
Quando essa experiência se repete, o trabalho pode deixar de encontrar um sentido. E todo trabalho naturalmente envolve esforço, frustração, cobrança e dificuldades. Mas, quando aquilo que fazemos não é reconhecido, pode ficar cada vez mais difícil perceber valor no próprio esforço. A pessoa continua trabalhando, se esforçando e entregando, mas começa a não enxergar significado naquilo que faz. E é nesse ponto que o sofrimento pode se aprofundar. Não é apenas estar cansado ou frustrado. É começar a questionar:
“Por que estou fazendo tudo isso?”
E, em alguns casos, a pergunta pode ir ainda mais longe:
“Eu tenho valor aqui?”
É nesse movimento que o sofrimento relacionado ao trabalho pode alcançar a identidade do sujeito.
Por isso, quando falamos sobre saúde mental no trabalho, não podemos olhar apenas para as características individuais de quem sofre. É preciso olhar também para a organização do trabalho, as relações estabelecidas, as formas de avaliação, os processos de reconhecimento e aquilo que é ou não é permitido ao trabalhador realizar.
Nem todo sofrimento que aparece no indivíduo começa no indivíduo.
Às vezes, ele nasce na relação entre a pessoa e o modo como o trabalho está organizado. E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes:
O que está acontecendo com essa pessoa e o que está acontecendo no trabalho que ela realiza?
Porque compreender a saúde mental no trabalho exige olhar para os dois lados dessa relação. E é a partir daí que podemos começar a compreender o que acontece dentro de nós: nossos pensamentos, nossas crenças, nossas emoções, nossas respostas ao estresse e a maneira como nosso cérebro reage diante de situações de ameaça, cobrança, impotência ou falta de controle.
O sofrimento tem uma história.
E, muitas vezes, para compreendê-lo, precisamos olhar não apenas para a pessoa que sofre, mas também para o lugar onde esse sofrimento acontece.
Carolina Kumagai
