As eleições passaram. Mas será que as tensões e divergências que surgiram durante esse período também ficaram para trás?
Para algumas pessoas, o fim do processo eleitoral não significa necessariamente o fim dos conflitos.
As opiniões foram expressas. As discussões aconteceram. Algumas relações podem ter ficado estremecidas.
E, mesmo depois da votação, ainda precisamos conviver com pessoas que enxergam o mundo de uma maneira completamente diferente da nossa.
Isso pode significar ouvir opiniões diferentes das suas.
Ver pessoas que ama defendendo ideias que você considera absurdas.
Conviver com familiares, amigos ou colegas que possuem posicionamentos políticos muito diferentes.
E é justamente aí que uma divergência política pode deixar de ser apenas uma divergência de ideias.
Porque, quando determinados valores estão profundamente ligados àquilo que acreditamos ser certo, justo ou seguro, ouvir uma opinião contrária pode despertar emoções muito intensas.
Raiva.
Medo.
Frustração.
Indignação.
Impotência.
E isso não acontece apenas no campo das ideias. Pode chegar às relações.
Uma pesquisa realizada no Brasil após as eleições presidenciais de 2022 investigou justamente a relação entre diferenças de preferência eleitoral e conflitos dentro das famílias (Gatto; Leal; Thomé, 2025).
A psicologia política tem estudado esse fenômeno como polarização afetiva: não se trata apenas de discordar das ideias do outro, mas de desenvolver sentimentos negativos em relação a quem pertence ao outro grupo político.
E existe uma diferença importante entre pensar:
“Eu discordo do que você defende.”
e pensar:
“Se você defende isso, então existe alguma coisa errada com você.”
É nesse segundo movimento que a conversa pode mudar completamente.
A discussão deixa de ser sobre uma ideia.
Passa a ser sobre a pessoa.
E, quando isso acontece, fica muito mais difícil escutar, fazer perguntas, sustentar a própria posição sem atacar e, principalmente, lembrar que uma pessoa não se resume à sua posição política.
Isso não significa que precisamos concordar.
Também não significa que toda divergência deva ser tolerada sem limites. Existem valores e questões que podem ser profundamente importantes para cada pessoa.
Manejo emocional não é abrir mão daquilo em que acreditamos.
É conseguir escolher como vamos nos comportar quando aquilo em que acreditamos é colocado em confronto.
Mesmo depois das eleições, algumas perguntas podem nos ajudar a compreender melhor nossas reações diante das divergências:
O que exatamente está me deixando tão mobilizado?
Eu estou discordando de uma ideia ou me sentindo atacado pessoalmente?
Estou tentando compreender o que o outro pensa ou apenas esperando a minha vez de responder?
Preciso realmente continuar essa conversa?
Essa discussão precisa acontecer agora?
E, principalmente:
O que eu quero preservar depois que essa conversa terminar?
Porque algumas discussões terminam quando alguém apresenta um argumento melhor.
Outras terminam quando alguém decide que a relação é mais importante do que vencer aquela conversa.
Talvez maturidade emocional, mesmo depois do período eleitoral, também seja saber diferenciar:
“Eu não concordo com você”
de
“Eu não consigo mais me relacionar com você porque você pensa diferente de mim.”
A primeira frase fala de uma divergência.
A segunda pode transformar a divergência em ruptura.
E nem toda conversa precisa terminar em concordância.
Algumas precisam terminar apenas com respeito suficiente para que duas pessoas continuem podendo existir na vida uma da outra.
Autoconhecimento também é perceber o que acontece dentro de nós quando somos contrariados.
Porque não escolhemos o que as outras pessoas pensam.
Mas podemos aprender a escolher o que fazemos com aquilo que sentimos quando encontramos alguém que pensa diferente.
Na psicoterapia, esse também pode ser um campo de investigação: entender o que é ativado em nós diante da divergência, quais pensamentos aparecem, quais emoções assumem o controle e quais comportamentos surgem quando nos sentimos ameaçados, contrariados ou incompreendidos.
Não para aprender a concordar com todo mundo.
Mas para desenvolver mais liberdade para escolher como queremos responder.
Referência científica:
GATTO, M. A. C.; LEAL, J. G.; THOMÉ, D. What explains election-driven family conflicts? Research & Politics, 2025. DOI: 10.1177/20531680251319815.

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