Quando a situação termina, mas continua dentro de nós

Às vezes, a conversa acaba.
O expediente termina.
A cobrança já passou.
O conflito foi resolvido.

Mas, dentro de nós, aquilo continua.

Continuamos pensando no que aconteceu, imaginando o que poderia ter sido diferente, antecipando o que pode acontecer depois ou revisitando aquilo que dissemos ou deixamos de dizer. E é aqui que uma situação que já terminou pode continuar produzindo efeitos.

Na perspectiva cognitivo-comportamental, não reagimos apenas aos acontecimentos. Reagimos também à forma como os interpretamos.

Uma mesma situação pode assumir significados muito diferentes dependendo das crenças, experiências e pensamentos que são ativados naquele momento.

Uma cobrança pode ser interpretada como:

“Estão me mostrando algo que preciso melhorar.”

Mas também pode ser interpretada como:

“Estou falhando.”
“Eu deveria conseguir dar conta.”
“Se eu errar, vão perceber que não sou boa o suficiente.”

A situação externa é a mesma. Mas a experiência interna pode ser completamente diferente.

Judith Beck descreve como nossas crenças e pensamentos influenciam a maneira como interpretamos as situações. E David Burns chama atenção para diferentes padrões de pensamento que podem distorcer essa interpretação e intensificar emoções difíceis.

Isso não significa que aquilo que sentimos seja “imaginação” ou que bastaria pensar positivo.

Significa que existe uma interação constante entre o que acontece, o significado que damos ao que acontece e a forma como respondemos a isso.

E o nosso corpo também participa desse processo.

Quando uma situação é percebida como ameaçadora, nosso organismo pode entrar em estado de alerta. O problema não está em essa resposta acontecer, ela faz parte da nossa capacidade de lidar com demandas.

Nosso cérebro possui sistemas de sobrevivência que foram sendo preservados ao longo da evolução para nos proteger diante de ameaças. Quando identificamos um perigo, o organismo rapidamente se prepara para agir: podemos lutar, fugir ou, em algumas situações, ficar imobilizados.

O ponto importante é que esses sistemas não são acionados apenas diante de um perigo físico real. Uma ameaça percebida como uma cobrança, um conflito, a possibilidade de fracassar ou até algo que estamos antecipando, também pode acionar respostas de estresse.

O cérebro não precisa esperar que o perigo aconteça para preparar o organismo para enfrentá-lo. E isso foi extremamente adaptativo para a nossa sobrevivência.

O problema aparece quando situações que não exigem uma resposta imediata de sobrevivência continuam mantendo o organismo em estado de alerta. O nosso cérebro sabe nos preparar para enfrentar uma ameaça. Mas também precisamos conseguir sinalizar a ele quando já é seguro parar.

Ou Seja, o problema é quando a situação termina, mas a resposta não termina junto com ela.

Podemos estar em casa e continuar pensando no trabalho.

Podemos estar tentando dormir e continuar revisando uma conversa.

Podemos ter resolvido um problema e continuar antecipando o próximo.

Podemos até estar em um momento de descanso, mas mentalmente ainda estarmos tentando resolver alguma coisa.

Almén chama atenção justamente para esse processo. Em seu modelo cognitivo-comportamental do burnout, ele propõe que preocupações e ruminações podem prolongar as respostas fisiológicas ao estresse e dificultar a recuperação, mesmo depois que o estressor externo deixou de estar presente.

Por isso, estar longe do trabalho não significa necessariamente estar recuperado do trabalho. Recuperação envolve mais do que interromper uma atividade. Envolve permitir que o organismo diminua sua ativação, que os recursos sejam restaurados e que exista espaço para voltar a lidar com novas demandas. E existe aqui um paradoxo importante:

Quanto mais precisamos nos recuperar, mais difícil pode ser parar.

Quem aprendeu a responder às demandas aumentando o esforço pode ter dificuldade de reconhecer que, naquele momento, continuar fazendo não está ajudando.

A pessoa descansa, mas continua pensando.

Para, mas continua antecipando.

Sai do trabalho, mas leva o trabalho consigo.

E, pouco a pouco, aquilo que deveria ser um período de recuperação se transforma em mais um espaço de preocupação. Talvez por isso a pergunta não seja apenas:

“Quanto tempo eu tenho para descansar?”

Mas também:

“O que acontece dentro de mim quando eu tento descansar?”

Consigo me desligar?

Consigo deixar uma questão sem resolver até amanhã?

Consigo perceber que uma situação terminou sem continuar tentando controlá-la mentalmente?

Consigo permitir que meu corpo saia do estado de alerta?

Porque, às vezes, o que está nos mantendo cansados não é apenas o tanto que fazemos.

É também o tanto que continuamos fazendo por dentro, mesmo quando já paramos por fora.

E talvez cuidar da saúde mental no trabalho também envolva aprender que recuperação não é falta de produtividade.

É parte daquilo que nos permite continuar vivendo, trabalhando e escolhendo com mais recursos.

Nem tudo o que termina fora de nós termina imediatamente dentro de nós.

E compreender esse intervalo pode ser um passo importante para entender por que algumas experiências continuam nos afetando e o que precisamos para, de fato, sair delas.

Na psicoterapia, podemos investigar por que algumas situações continuam acontecendo dentro de nós mesmo depois que terminaram: quais pensamentos permanecem, que ameaças estamos antecipando, como nosso corpo responde e o que pode estar dificultando a recuperação.

Referências

ALMÉN, Niclas. A Cognitive Behavioral Model Proposing That Clinical Burnout May Maintain Itself. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 18, n. 7, p. 3446, 2021. DOI: 10.3390/ijerph18073446.

BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

BURNS, David D. Sentir-se bem: a nova terapia do humor. São Paulo: Martins Fontes, 1982.

Esperidião-Antonio, V. et al. Neurobiologia das emoções. Revista de Psiquiatria Clínica, 35(2), 55–65, 2008.

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